Sei que o pior já passou e que deveria estar com a programação normal, fazendo uma análise da partida de ontem. Mas não consigo e nem quero me lembrar do que aconteceu. Prefiro fingir que foi um pesadelo, uma piada de mau gosto.
![[31/01] Conca Conca! Conca!](http://flupress.files.wordpress.com/2010/02/05555555psg.jpg?w=300&h=200)
Conca! Conca!
Ciente desta cituação, postarei abaixo uma crônica que li em um fórum e que achei espetacular. Uma crônica que representa bem o que estou sentindo agora. O texto é meio grande, mas vale a pena, confiem.
De campeão a guerreiro: que venha o guerreiro campeão!
Janeiro de 2010. Uma enfermeira observa os aparelhos de um paciente. Prepara um de seus medicamentos, quando, de repente, ouve-se o hino do Fluminense, vigoroso. Era o toque de seu celular. A dificuldade para livrar-se dos remédios, alcançar o aparelho no seu bolso e uma pequena queda deste, permitiram que o hino tocasse até o “… quem espera sempre alcança”.
Seu “alô!” não foi ouvido do outro lado. Desligaram.
O paciente abrira os olhos, que, embaçados, não lhe permitiam distinguir imagens. O hino tricolor irrompe mais uma vez. Sérgio, o paciente, tenta firmar os olhos. As imagens não são nítidas, mas o som … . Ah! Doce era a seus ouvidos.
Ele soergue centímetro sua cabeça e comenta:
- Isso é que é ser tricolor. Você traz um gravador com o hino gravado pra ouvir no trabalho.
O susto foi grande. O celular cai mais uma vez e a chamada, de novo, não é respondida. A uma exclamação limitou-se: – Meu Deus!
- Eu também sou tricolor. Disse Sérgio em voz embargada.
- O senhor acordou. Que bom! É milagre!
- Só pode ser de João de Deus, com hino do Flu e tudo. Disse sorrindo meio torto o paciente tricolor.
A enfermeira nem respondeu. Saiu em desabalada, abriu a porta gritando pelo Dr. Paulo, que, não tardou, veio ao quarto 84 onde Sérgio estava.
- Bom-dia! Como está? Sente algo? Perguntou o jovem Dr. Paulo.
- Meio cansado doutor. Queria só levantar um pouco a cabeça, mas é meio difícil.
O médico sobe a cabeceira da cama e aproxima-se. Olha os equipamentos, anota dados, checa a hora, mede a temperatura e tira a pressão. O paciente aguarda e repara no jaleco do médico o seu nome ali bordado.
- Que beleza o seu nome doutor. Fácil o melhor goleiro do Brasil.
- Ah! O senhor deve estar me confundindo com o Dr. Júlio César. Puxa vida! Logo ele que é bem mais velho e flamenguista.
- Já vi que também é tricolor. Estou falando do seu nome mesmo: Paulo Victor. Nunca vi goleiro melhor.
- Meu pai acha o mesmo. Tanto que me deu o nome dele.
- Melhor do que Félix. Seu pai adivinhou que ele seria um grande goleiro.
- No gol ou no nome?
- Nos dois.
- Pena que não temos mais Paulo Victor. Disse e arrependeu-se o médico.
O espanto de Sérgio é tal que levanta seu tronco e pergunta: – Foi vendido pelo Flu?
O médico sorri. – Claro que não. Paulo Victor jamais seria vendido.
- Por um instante temi pelo pior. Não sei quando teremos um goleiro igual outra vez. Acho que vai demorar e muito.
A enfermeira interrompe: – Doutor, quer que eu chame a psicóloga ou avise a família?
- Vamos deixá-lo descansar um pouco. Chame a família. A psicóloga deverá acompanhá-los na visita.
Sérgio descansa. Em sua mente, estão as imagens do casal 20, Washington e Assis, e de seus gols. Lembra-se dos lances do seu time. O gol contra o Flamengo aos 46 minutos do segundo tempo na decisão de 1983, o gol de Romerito contra o Vasco, e os títulos seguidos de tricampeão carioca e de campeão brasileiro.
Duas horas depois, Sérgio vê um rosto familiar entrar em seu quarto. Espanta-se. Era seu avô, morto na década de 70. Exclama:
- Vô! Porra vô! Agora não. Tô novo ainda. Eu sei que eu não acredito nesse troço de vida após …
- Filho! Sou eu filho, seu pai. Não sou seu avô.
- Pai? Que cabelinho chinfrim é esse? E o que sobrou tá branco. Que houve?
- Filho, eu envelheci.
- Tudo por preocupação por causa do meu acidente? Eu tô bem pai. Já estou conversando, já comi alguma coisa. Daqui a pouco volto pra casa. Perdi muita aulas?
A porta abre mais uma vez. – Bom-dia a todos. Como estamos? A conversa de vocês vai bem?
Era a psicóloga. Sérgio apressa-se a dizer que está tudo bem, que estranhou os cabelos brancos de seu pai, que achava que ele não devia ter se preocupado tanto por aquele acidente de carro e que nada de mais grave havia acontecido. A doutora o interrompe.
- Sérgio, você esteve dormindo por um bom tempo. Seu acidente foi em janeiro de 1986. Nós estamos em janeiro de 2010.
O choque foi absoluto. Abraços, choradeira, pai, mãe, irmãos, sobrinhos nunca vistos, e amigos. Por algum tempo, pouco tempo, o Fluminense foi esquecido.
Na chegada à casa na Tijuca, o quarto de Sérgio estava como o deixara. Uma TV colorida de 14 polegadas à qual se ligava um console de Atari e um mini computador TK85 com um livro de Basic, uma máquina de escrever Olivetti, um pôster do Fluminense campeão brasileiro de 84, outro da Vera Fischer e mais um com a Rose di Primo, linda sobre uma moto, além de uma coleção de discos, entre LP’s e compactos, e uma caixa de fitas cassete.
Sérgio pede para ficar só. Abre seu armário. Tudo estava como antes. Um monte de camisetas e shorts Canalonga e Fast Feet, calças da Ocean Pacific, algumas camisas da Company e um time de botão de galalite guardado com carinho. Dentre os calçados, aquele famoso kichute artilheiro. Numa gaveta, achou uma camisa branca do Fluminense oficial da Le Coq Sportiff, além de uma coleção de revistas da Playboy.
Abre a da Magda Cotrofe, que ainda registra a marca de um de seus últimos momentos de gozo.
As mulheres? Ainda as achava lindas, mas como estariam após esses 24 anos? As roupas não mais serviam: ou não cabiam ou eram anacrônicas. Viu-se no espelho. Encontrara-se afinal, mas não se reconhecia. Abatido por certo, mas também estava meio grisalho e com marcas no rosto. Descobrira por que o chamavam de senhor no hospital.
Encontra, por fim, uma flâmula tricolor com todos os campeonatos cariocas e brasileiros conquistados pelo Fluminense. Caíra da parede e guardaram-na, com certeza.
Sérgio pega a flâmula e sai do quarto. Encontra seus pais e pergunta:
- Vocês me contaram sobre tudo mesmo, não? Toda a verdade e tudo o que aconteceu, não é?
- Claro meu filho. Contamos-lhe tudo. Nada omitimos. Você deseja mais alguma coisa? Quer mexer no seu quarto?
- Quero. Vou mudar tudo. Quero tudo novo. Uma realidade atual. A primeira coisa a atualizar é esta flâmula.
- Os pais engolem a seco. – Atualizar o quê? Pergunta sua mãe.
- Quero saber quantos títulos ganhou o meu Flusão nesses 24 anos em que dormi e ver se a flâmula aumentou de tamanho. Só de Brasileiro devem ter mais uns três. Carioca é mole. Devemos ter ganho mais uns dez, pelo menos.
A pergunta fatídica está por vir, pressentem os pais de Sérgio. Não tarda e ele pergunta:
- Pois é! Vocês me contaram uma porção de coisas, mas até agora não me disseram como está o meu Fluminense. E aí paizão? Quantos títulos a mais a gente pode colocar nessa flâmula?
Meio sem jeito, o pai busca uma saída.
- Filho! 24 anos, 3 ou 10 títulos? Acho que isso são só números. Sabe o que os tricolores aprenderam em todos esses anos? Que números nada dizem. Tal como você voltou do coma e ninguém acreditava, os tricolores aprenderam que nada é impossível quando somos guerreiros. Os tricolores sabem que os matemáticos são péssimos de futebol e de memória. Os matemáticos de hoje esqueceram as lições básicas de Malba Tahan, no “Homem que Calculava”, quando Beremiz Samir afirmava que “da incerteza do cálculo é que resulta o indiscutível prestígio da matemática.”
O velho jovem não compreendia bem o raciocínio. – Como pai? Perguntava, lembrando-se do livro de Malba Tahan que seu pai lhe dera há muitos anos atrás.
É isso filho. Isso mesmo. Nós tricolores seguimos as lições de Malba com coração e luta. Como aquele provérbio dito pelo rei El-Harit no livro: “é preciso desconfiar sete vezes do cálculo e cem vezes do calculista”.
- Xiii! Pai, não entendi essa coisa de matemática não.
Em percebendo que conseguira desviar a atenção do filho, o pai, mais calmo, aconselha:
- É uma longa história meu filho. Mas fique tranquilo. Vista sua camisa tricolor com orgulho. Saiba apenas uma coisa: dentre os tricolores, você é o que dormiu campeão e acordou Guerreiro.
Autor: desconheço.